Dica

LIVRO “DIAS DE ABANDONO” – RESENHA

6 de março de 2017
dias-de-abandono-elena-ferrante

Hoje trago a você, mulher, uma resenha especial e diferente. Não que para a ala masculina não será de boa utilidade, uma vez que se trata de um livro muito bom ao qual recomendo a todos. E sem contar que para correr os riscos abaixo analisados basta uma vida a dois. Porém, o lado feminino deve sentar e se debruçar a este pedaço de páginas contidas na história dessa sensacional escritora italiana cujo pseudônimo é ELENA FERRANTE.

”DIAS DE ABANDONO”, narra a história de Olga que após quinze anos de casamento é surpreendida pelo pedido de divórcio. Um susto totalmente sincero e desprovido de qualquer sinal. A justificativa de Mario são aquelas palavras casuais de cansaço, insatisfação, e alguns outros argumentos desconexos. No entanto, disse que nada havia de errado com ela ou com os dois filhos, assumindo posteriormente a culpa de tudo. E assim a deixou, nas palavras da personagem, “como uma pedra ao lado da pia”, enquanto simplesmente ele saía pela porta, fechando-a cautelosamente.

E antes de eu dar mais um passo, você já deve ter notado o quão delicado é o assunto e próximo da vida real. Eu tenho uma opinião à respeito de livros que narram sentimentos, emoções, como no caso do término de um casamento. Quanto mais delicada a escrita e profunda, melhor para aquele que o lê mergulhar na narrativa e, por conseguinte, gerar maior compreensão. E isso Elena Ferrante fez de forma impecável!

Não vou mentir a você. Esperava um pouco mais. Contudo, quando virei a última página, percebi que foi exatamente a expectativa frustrada somada a abundância de sentimentos afivelados na escrita, junto com a simplicidade do enredo que me chamou a atenção. E me trouxe o carinho por esse livro e respeito com todas as situações vivenciadas, tristemente, pela protagonista. E a ela todos os meus aplausos, tal entendimento essencial a quem leu o livro, incapaz de descrevê-lo.

Supondo que você não o leu, entenda uma coisa. Essa mulher ficou devastada na dor. Ela sofreu muito com o abandono. Até mesmo a sua personalidade modificou, decorrente de toda a negatividade. Sua angústia era tanta que nada e ninguém, e nem mesmo os seus filhos, passaram a ter um significado honesto e positivo do qual ela precisava mais do que nunca nesta fase turbulenta.

E por falar em significado, venho em sua defesa. Uma mulher que vive com um homem, pai de seus filhos, por uma década e meia, e de repente não faz ideia de quem ele é, de suas atitudes, deve estar no mínimo se perguntando, afinal o que exatamente eu sei de cada coisa que eu penso conhecer?! A busca pela sua fiel identidade é construída passo a passo entre seus tormentos ao constatar que se esqueceu de si mesma por prioridades que deixaram de existir como num desaparecimento sem vestígios.

O leitor é convidado a passear por todas essas questões, muitas delas irracionais, formuladas no calor da raiva, não se esquecendo que apesar dos pesares ela é mãe de filhos pequenos, dona de casa e de uma vida a qual ela é obrigada a botar pra frente, como todos nós em diversas situações. Percorrendo mecanicamente os olhos pelas páginas, reprovava todo o seu vocabulário obsceno e a negligência com os filhos, sintomas estes relacionados aos tempos difíceis. O caso com o vizinho é a válvula de escape das suas feridas, aguardando uma recompensa cega e piedosa da sua autoestima dilacerada.

Mas basta ser sensível para entender que não é nada fácil e todos nós temos nossos momentos por direito. A barra era toda dela e sem ninguém para com quem contar, nem mesmo uma amiga mais próxima. Sabe aqueles casamentos em que se desfaz de todos (absolutamente todos) os contatos? E de um dia para outro observa que não tem mais ninguém além do marido? Pois é, só que até isso Olga perdeu. O meu sentimento por essas linhas foi um misto de pena e compaixão.

E como eu torci por essa personagem! Queria vê-la bem! Se reflete que a felicidade tão almejada, principalmente quando seu mundo vira de ponta cabeça e você necessita com todas as forças se reerguer, pode ser mais simples do que imagina. Porque quando estamos no escuro dificilmente enxergamos algo coerente, mas para algumas pessoas é dada a benção de aos poucos retomar a visão e os verdadeiros sentidos que visualizam o bem, aqueles que nos impulsionam a ser melhores a cada dia, por nós mesmos e por quem amamos.

E é esse o coração do livro pelo qual eu tento cuidadosamente expressar nesse texto: simplicidade. A autora ousou desse ingrediente tão verossímil a vida, tornando a história mais convincente.

Você há de convir que somos um mar de contrariedades, ora estamos com toda a certeza, ora sem nenhuma. Ora alguém é tudo para nós, ora já é do passado. É esse o movimento pelo qual trabalhou Ferrante. E então todo aquele mal é jogado sobre você, mas o que fazer? É quando o “jogo do precipício” começa. E nas cartas você tem duas opções. Se afundar mais no abismo ou se refazer.

Entretanto, aquela ‘carta na manga’ ou o seu ‘coringa infalível’, também conhecido como Deus, é poder chegar a um momento que você é mais forte que tudo. E a sua felicidade nunca mais dependerá de nada ou ninguém. E quando você estiver comandando o jogo, ouvir ‘truco’ ou qualquer expressão que implique abalo, ficará suspenso pois nada mais poderá te derrubar.

“Dias de abandono” é uma leitura em homenagem as mulheres de coragem que são abandonadas e largadas com seus filhos. Esquecidas num mar de amor e ódio, humilhadas até o pescoço, que se perguntam constantemente o que elas fizeram de errado, quando na verdade elas só entregaram amor.

.. E ainda sim, são capazes de continuar entregando ..

.. Até finalmente se cansarem.

 Beijos e até breve! Rapha.rapha

Posts Relacionados

Deixe um comentário

Seja a Primeira a Comentar!